sexta-feira, 20 de abril de 2018

Rafael García Serrano: explorador de paisagens sem nome



"(...)
quisiera ser orilla de flores de ribera,
por irte acompañando, por irte embelesando.
El paisaje sin nombre de tus ojos perdidos,
el água para el sitio último de tus labios
(...)".
Juan Ramón Jiménez. A Filomena, Blanca y Rubia, Como Luna con Sol.

Os versos que citei perseguiram Rafael García Serrano, escritor espanhol nascido em Pamplona no ano de 1917, ao longo de toda a sua vida. E com razão: toda a sua obra, tida por alguns como verdadeira incitação ao combate, foi a contemplação de inúmeras paisagens sem nome vislumbradas em todos os olhos perdidos que encontrou ao longo dos anos. Olhos lânguidos de camaradas mortos na Guerra Civil, de homens maduros com esperanças renovadas, de mulheres enamoradas que, enquanto compreendiam o dever de seus amados, choravam escondidas e acendiam velas à Virgem para que eles retornassem para casa sãos e salvos. Porque a guerra que dividiu a Espanha, que dividiu os espanhóis, foi palco da vida e dos escritos de Rafael García Serrano.

Mas a divisão, claro, começou bem antes. E, na convulsa cidade de Madrid durante a Segunda República, o jovem García Serrano ouviu pelo rádio o discurso de José Antonio no Teatro da Comédia: foi o que bastou para abandonar a militância de esquerda e entregar-se à Falange Espanhola por toda a vida. O escritor pamplonês nunca abandonou o yugo y las flechas nem muito menos a honrosa estrela de alférez provisional que usou em combate pelo Bando Nacional. E isso lhe custou caro: hoje é um autor esquecido e facilmente tachado de facha por aqueles que nunca se deram ao trabalho de abrir seus livros. Mas também, justiça seja feita, por muitos que o leram: porque o ideal falangista, o anseio por uma nova Pátria e pelo heroísmo, se faz presente em todos os seus romances. Isso se pode ver desde logo no primeiro livro que publicou: Eugenio o Proclamación de la Primavera (1938). O personagem principal, conquanto levasse o nome de um seu camarada, não era um indivíduo concreto, nem mesmo totalmente verossímil. Ele era o morto, sim, o morto, "que yo -- que cada uno de nosotros -- hubiera querido ser".

Porque Eugenio, el bien engendrado, foi um arquétipo de herói para toda aquela geração de jovens falangistas de primeira leva. Logo no primeiro capítulo vemos exemplos de bravura, de exaltação e de uma abnegada capacidade de sacrifício. É no início do livro que Eugenio "escolhe" a sua morte: uma morte de soldado, de cara al sol (como diz o hino da Falange) porque não conseguiria aguentar viver naquela Espanha apodrecida e também porque, de algum modo, ele sabia que iria morrer. Mas, ainda que não parecesse, Eugenio era humano e se apaixonou. O autor nos diz que encontrou sua amada como Leandro encontrou Hero. Sem embargo esse amor foi mais uma preparação para a morte:
O sea que ya no existe el problema dulce de la personal primavera. Por cesión trágica, Eugenio otorga su personal primavera a cambio de la primicia de la sangre. Dios haga, Eugenio, camarada el bien engendrado, que la tuya sea fecunda. Eugenio ha dado el ejemplo a todos nuestros jóvenes camaradas que abandonan la novia por salir a buscar la cita arriesgada del peligro, que es más fuerte y más deseado en la hora de la vencida.
Eugenio abandonou sua primavera pessoal por outra que o transcendia. Rafael García Serrano começou a escrever esse livro em 1936 e leu-o para seus camaradas. Não é nada difícil imaginar o efeito que produziu em todos aqueles rapazes sinceramente inquietos e entusiasmados.  O personagem era como eles, como o próprio Rafael, num estado de elevação quase sobre-humano. É interessante que, no romance La Fiel Infantería (1943), o personagem Ramón também está no grupo desses grandes entusiastas falangistas; é alguém que tenta a todo momento fazer com que todos entendam as razões para estarem na guerra. Ele desejou ardentemente uma morte em combate, como um herói, mas acabou vítima de uma tuberculose e foi retirado do campo de batalha para morrer num hospital. Ramón também era como Rafael: era, na verdade, o Rafael que poderia ter sido com o fim que o escritor poderia ter encontrado. Parece que Ramón encarna as esperanças grandiloquentes do jovem falangista Rafael -- que descobriu uma tuberculose na batalha do Ebro -- e leva às últimas consequências suas frustrações de convalescente. Ramón pensava demais em si mesmo e em suas ambições:
Ramón vivía convencidísimo de que Dios pensaba en él cada minuto, porque también oía en sí mismo el hote de su gran destino. Ignoraba Ramón que los mozos así, altaneros, taciturnos, predestinados, suelen morir modestamente; que la peor señal de malogro es oír demasiado el crujido de la hierba interior.
Ramón passou da frivolidade de uma vida tranquila de estudante em Madrid (enquanto seus colegas, de ambos os lados, já ensaiavam combates) para a certeza de que havia algo maior, muito mais importante, do que uma vida pacata e prazeres fáceis. De repente a realidade caiu-lhe diante dos olhos de modo a tornar inútil tudo o que veio antes. E claro que a partir daí a necessidade de combater, de construir uma nova Espanha, passou a ser o que havia de mais importante para ele. E o que importava era vencer. Tanto que ironizou as comparações do caráter espanhol com o Quijote, que o irritavam. Porque, para ele, o velho Fidalgo da Mancha não passava de um fracassado, péssimo exemplo para ele e todos os seus camaradas. Para alguém assim a morte na cama de um hospital só poderia representar um fracasso:
Pero Ramón, Ramón predestinado, Ramón superior, Ramón gibelino, Ramón litigando ante el Dios de los acampados, Ramón alférez, Ramón con su historia, Ramón ha llegado ya -- piensa, desobedeciendo al médico --. Ya no duda, ya no se desespera, ya no es altanero: ya sólo es un resignado. Lo que jamás hubiese querido ser: un resignado. Algo así como un vencido que no se rebela, que cierra los ojos y codicia el mazazo definitivo. La resignación -- ¿verdad, Matías? -- es un artificio para ocultar la derrota. Seguramente que en cuanto tenga un minuto libre el activo burócrata, Ramón habrá terminado y nadie sabrá qué universo de sueños nutría y qué mochila de ambiciones llevaba a la espalda mientras defendía su paso con las manos armadas. El mundo -- la derecha en las aceras, los domingos por la tarde, las capitanías, el servicio de los demás, una a una, la chica de al lado --, el mundo es de los fuertes. <<Y yo -- susurra Ramón -- he dimitido de fuerte porque no muero como los fuertes>>. Y se despedía de ellos.

Sua tristeza de vencido que não se rebela foi como a de Don Quijote ao ser derrotado pelo Caballero de la Blanca Luna e sua morte foi como a de Alonso Quijano, que se desculpou com Sancho por tê-lo arrastado para tantas e tão "insanas" aventuras. Se fez igual, no fim da vida, ao personagem que tanto desprezava. Mas nosso autor, claro está, sobreviveu para contar a história desse desdichado Ramón, do apaixonado Miguel e do despreocupado Matías. E também para falar de Pamplona. De certo modo pode se dizer que a bela cidade é a personagem principal do romance Plaza del Castillo (1951), cuja história nos é narrada entre os dias 6 e 19 de julho de 1936, e mostra um pouco da preparação para o esperado Alzamiento que começou no dia 18 e teve sua mobilização em Pamplona no dia 19, depois do último San Fermín antes da guerra. A própria festa tem um significado muito importante para compreender a unidade da Espanha e a dor causada pela sua ruptura:
Pensaba Joaquín, mirando en torno, que la diversidad se unificaba alrededor de la fiesta cristiana. Los buenos y los malos, los ricos y los pobres, los listos y los tontos, los analfabetos y los sabios, los guapos y los feos, encontraban en el fondo de su alma cristiana la honda ligadura de una unidad cada día más difícil, cada día más cuarteada por las circunstancias. Entró Javier García con varios de su cuerda, el vendedor de Mundo Obrero, otro que pasaba por matón profesional y un par de estudiantes, y Joaquín se daba cuenta de que también ellos, esos cinco que entraban, estaban cogidos por la magia unitiva de la fiesta, por el légamo cristiano de sus corazones, por aquellas preces de la madre, por siglos de catolicidad en la sangre, y su blasfemia era cristiana y sus ganas de quemar iglesias eran cristianas y ellos se sabían herejes porque también conocían o intuían una simple y hermosa ortodoxia. Era la rabieta contra Cristo, la pataleta de los desesperados que no saben o no quieren comprobar como Cristo, solamente Él, puede ser su centurión, su amigo, su camarada.
Em um sublime parágrafo García Serrano mostra os fundamentos da unidade espanhola e a autêntica razão de sua ruptura. Ele sabia que aqueles outros homens, seus irmãos e ao mesmo tempo inimigos, blasfemavam en católico -- como dizia o Padre Castellani -- porque conheciam os símbolos da fé e sua importância: sabiam exatamente o que detestavam e o que precisavam destruir. Até em seu ódio existia solenidade. Eram bem diferentes de Luis Murguía, aquele personagem de Pío Baroja para quem os símbolos não significavam absolutamente nada, pois lhe eram completamente indiferentes. E a verdade é que, pasmem!, durante os anos do regime do General Francisco Franco alguns consideravam que os romances de García Serrano não deviam ser levados em consideração porque tratavam bem demais o inimigo. Isso é verdade. Porque o autor sabia que o outro lado estava composto por espanhóis, por homens "que decían madre igual que tú", que se comunicavam na mesma língua, que empregavam as mesmas expressões para se referirem às experiências comuns. Mas os burocratas e ideólogos não podem entender isso: para eles só existem as ideias e os planos, mas não o homem concreto que, por desgraça, pode estar do outro lado. E a realidade seria baixa, rasteira, sem demasiadas complicações. No entanto, como percebia o jovem Felisín:
El pecado estaba en torno, pero una atmósfera zafia lo hacía repugnante para cualquiera que tuviese mediano gusto. Sucedía, simplemente, que hasta los pregoneros de una virtud sin sustancia, sin heroísmo, sin belleza y sin interés, formaban en la tribu de gustos soeces, de mal estilo, y esa falta de un alto y claro estilo, de una manera de ser entera y verdadera, hacía de todos y cada uno de los españoles gentes sin vuelo, sin raigambre, aburridas y desesperanzadas. El gran acuerdo nacional, el programa común de izquierdas y derechas, de nobles y plebeyos, consistía en agarbanzar más aún la existencia, en esculpir en corro. Quedaban unos cuantos locos, pero ¿qué podían hacer?
É verdade: o que poderiam fazer esses loucos sensíveis e anelantes de beleza e sentido? Talvez escrever alguns livros e dar testemunho com a própria vida, como fez Rafael García Serrano até 12 de outubro de 1988, quando faleceu. Penso que ele sempre carregou com orgulho a estrela de alférez provisional porque se considerava um "soldado da pluma", tanto quanto Meersch se considerava seu operário.  E também porque quis -- e conseguiu -- mostrar que o sangue e a terra estão atrelados no homem, em suas raízes mais profundas. Isso fica bastante claro na belíssima visão que estampou da sua amada terra de Navarra. Transcreverei suas palavras para finalizar este texto:
(...) desde la raza rubia y primitiva de las montañas, hasta la raza indomable, ibérica, morena, de la Ribera, todo lo tiene Navarra, compendio geográfico y espiritual de España, resumen y cifra de la Patria hermosa. Como ella conserva su antiguo sedimento romano y guarda a un tiempo, en su parte vascongada, el ánimo arriscado y montaraz de los que ni Roma doblegó. Las atalayas fronterizas, las aventuras de moros, los monasterios del Pan, el Vino y las letras. No fue en vano vía de peregrinaje, paso obligado hacia la tumba del Señor Santiago, y ahí está el alma católica de un pueblo que recuerda el fervor andariego de quienes cruzaron el mundo para rezar ante el Apóstol jinete. Los pasos de Roncesvalles, que recogieron el rumor europeo de su época, dieron también la cara por la Independencia, y allí hincó el pico la caballeresca historia del cuerno de Roldán, que ni astilló el fragante burladero de las montañas. En Pamplona fue herido el capitán Loyola, a quien Dios puso así en la jefatura de los ejércitos que habrían de hacer un Mühlberg teológico. Y a la vez, en Javier, tierra intermedia y adusta, un hombre joven recogería el ímpetu conquistador de España para transformarse en un Hernán Cortés a lo divino: en San Francisco Javier, evangelizador del Japón. Navarros, rojos carriquiris, eran los toros que Orison lanzó sobre Amílcar, con el rojo fuego de la sangre y las rojas y alucinantes hogueras en el testuz, y navarros eran los toros que Altamirano llevó a Toluca, los toros conquistadores de América, y navarra es la suerte de torear a pie y esa fase primera y valerosa de agarrar al toro por los cuernos.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Maxence Van Der Meersch: pescador de homens




"On dirait que la douleur donne à certaines âmes une espèce de conscience".
Léon Bloy.


Não é exagerado dizer que a dor deu a Maxence Van Der Meersch a consciência de sua vida e responsabilidade: foi o sofrimento que o resgatou do vazio e do desespero. Nascido a 4 de maio de 1907, em Roubaix, na fronteira com a Bélgica, Maxence era filho de um comerciante bem-sucedido que, mesmo durante a guerra e a invasão alemã, soube se virar para sair-se bem. Ele tinha uma irmã mais velha, Sarah, cujo falecimento aos 19 anos provocou a ruptura de seus pais e grande dissipação em suas vidas causada pela dor.

A longa agonia e a nobre morte da jovem Antoinette, no romance Invasão 14, publicado em 1934, é de certo modo o resgate e a justificativa que Meersch deu à sua própria irmã. A menina, criada pela mãe, criatura irresponsável e preocupada apenas com dinheiro, sentia que lhe faltara algo; sentia que sua vida era baixa, vulgar, sobretudo se comparada à boa educação e carinho que seu pai dava ao irmão mais novo. Antoinette ansiava, como todos em Roubaix, pelo fim da guerra. Mas também ansiava por algo mais: tendo se desiludido logo cedo com a vida pela visão degradada e diminuída que lhe dera a mãe, queria algo que ultrapassasse toda aquela miséria e contivesse alguma beleza. Já na cama, prestes a morrer pela tuberculose, a mãe conseguiu que um soldado inglês -- um liberador! -- entrasse para que ela o visse: a menina, então, esticou seus braços até ele, tocou os botões de seu casaco e começou a chorar. Apesar de tudo desejava deixar uma boa recordação: uma lição para seus pais e seu pequeno irmão. A imagem que Meersch nos dá de sua morte é fortíssima:
Viram Edith e Samuel, desesperados, segurando o busto descarnado de um ser irreconhecível, uma espécie de Cristo de olhos apagados, longa e luminosa cabeleira, com os braços em cruz e a boca aberta, como se no momento de entregar sua alma houvesse lançado um grito.
E começa o seguinte capítulo com a terrível frase: "O holocausto de Antoinette não serviu para nada". Apesar de a personagem não ter conseguido que seus pais voltassem a se unir, eu me atrevo a dizer que o sacrifício da menina teve, sim, um sentido: o sentido que lhe deu o autor, ao escrever e revisitar a vida da própria irmã que tão cedo lhe foi tirada. 

O romance Invasão 14 é a longa narrativa das penúrias dos habitantes de Roubaix ao longo da Primeira Guerra e sua relação com os invasores. A miséria e a traição, claro, se fazem presentes, mas também o heroísmo e o perdão. Meersch nos lembra, por exemplo, através do empresário Pascal Donadieu, que um homem na penúria pode encontrar um princípio que dê sentido à sua vida e o faça se arrepender da inutilidade de todas as ações vazias anteriores; mas, uma vez que retorna ao mundo da opulência, o prazer e o conforto são capazes de afogar a consciência. E que um amor inteiramente idealizado e devotado, como o do honesto e corajoso Patrice Hennedyk à sua enfermiça esposa Emilie (sua child-wife), pode acabar com a maior das traições: Emilie traiu Hennedyk com o médico alemão que ocupou sua casa. Depois de sair da prisão, Hennedyk, apesar de se ver livre e de que os empregados de sua fábrica dependiam dele para recomeçar, não teve forças para viver até ser capaz de perdoar sua esposa: era aquele amor abnegado que o tornara forte e corajoso.

Eu ainda poderia falar daqueles que colaboraram e enriqueceram pelos negócios com o inimigo durante a guerra e que, depois da liberação, posaram como os resistentes de primeira leva. Enquanto aqueles que, calados, tentaram resistir, eram tachados de colaboradores e humilhados. Sabemos que o mesmo filme se repetiu ao fim da Segunda Guerra. Mas penso que, em se tratando de Invasão 14, destacarei a figura do Abade Sennevilliers, inspirado em Abbé Pinte, sacerdote que contribuiu como pôde com a resistência e que foi um dos responsáveis pelo retorno de Meersch ao seio da Igreja. Transcreverei suas últimas palavras no romance:
Eu sempre pensei que por vil, por degradado que seja um homem, ainda há nele algo da chama divina. Eu a busco e me basta encontrá-la para amar o homem. Nos rostos mais fechados, mais hostis, mais herméticos, gosto de evocar o traço enobrecedor de um sofrimento, o reflexo de um amor... E consigo imaginar os traços, esses traços frequentemente duros e grosseiros, embelezados e transfigurados por um sentimento humano, uma paternidade, uma pura ternura ou até esta angústia de um destino incerto a que estamos todos confinados. E aos meus olhos, o homem torna-se outro e o amo, impulsionado pelo infinito problema, por esse drama trágico que encontro nele, como em todos, como em mim mesmo.
Aquilo que Unamuno chamou o sentimento trágico da vida está sempre presente na obra de Meersch, mais concretamente quando ele trata, quando ele mostra, cenas de desespero, profanação, miséria, solidão, sujeira e, ao fim de tudo, esperança. Porque a esperança tem uma força irradiadora em todos os seus romances: seus personagens são aqueles que, em meio aos próprios escombros, sempre tentam reconstruir suas vidas. Alguns, pela própria culpa, falham miseravelmente; os outros, aqueles que vencem, são ajudados por algo que os transcende. Porque Meersch, como católico, sabia que a Graça supõe a natureza. Mas claro que nem sempre foi assim: também ele, na sua juventude, teve medo de se perder para sempre. Em seu primeiro romance, A Casa das Dunas, publicado em 1932, nos narra a história de Silvio, contrabandista de tabaco que, acidentalmente, tomou uma distinta rota e se deparou com uma hospedaria. Nela foi atendido por uma linda menina que o deixava completamente sem jeito, que lhe parecia diferente de todas as outras que conhecera:
E aquele frescor, aquela juventude, lhe comoviam. Não se atreveu a olhá-la muito. Lhe pareceu injurioso olhá-la tão diretamente, deixando-a ver os pensamentos que lhe inspirava. Olhava seu busto, apenas insinuado ainda, como o peito de uma adolescente. Estava com um vestidinho cujo decote mostrava somente o nascimento da garganta e provocava em Silvio uma casta perturbação, onde nada impuro vinha a mesclar-se. Ela simbolizava para ele a juventude. Experimentar, contemplando-a, um pensamento insano lhe teria parecido vergonhoso. Em sua imaginação, a comparava a algo puro, imaculado, como a neve branca que teria relutado em pisar.
Esta imagem ficou tão gravada em Silvio que, a partir daquele momento, decidiu mudar de vida. A visão daquela menina lhe despertou os sonhos da infância: queria ser um homem bom. Aos poucos decidiu deixar o contrabando para dedicar-se a alguma ocupação honesta, ainda que tivesse de viver com menos dinheiro. Essa mudança brusca, especialmente a financeira, foi notada pela mulher que vivia com ele: a mulher com quem se ligara unicamente pelo prazer. Ela não era capaz de entender o que se passava na cabeça daquele homem que, de uma hora para outra, a rejeitara e parara de lhe dar presentes. Então decidiu investigar e descobriu suas constantes visitas à Casa das Dunas: foi até lá e descarregou a raiva na "amante" do homem que considerava seu. Aqui a imagem da profanação é muito clara: ao saber que sua mulher dissera coisas sórdidas à jovem, o sonho de Silvio foi inteiramente quebrado. Meersch nos diz que ele desapareceu de casa por três dias e, quando voltou, estava sujo, esfarrapado, descalço e fedendo a vômito. Desde então retomou a vida de antes, com maior ímpeto. Se arriscava cada vez mais, como a desafiar a morte, até que a encontrou: com uma bala no corpo e sangrando, foi-se arrastando até o jardim da casa que um dia lhe deu a esperança da salvação.

O próprio autor se deparou com essa visão em sua vida. Foi quando, por volta de 1927, conheceu e se apaixonou por Thérèze Denis, uma pobre e enfermiça garota da classe operária que passou a ser a personagem principal de sua vida; muito provavelmente, sem ela não teríamos conhecido Maxence Van Der Meersch. O autor nos narra essa história no romance Corpos e Almas, publicado em 1943, que tem por protagonista o jovem estudante de medicina Michel Doutreval, filho de um dos grandes professores da faculdade que frequentava e que, se as coisas seguissem seu "curso natural", se casaria com a filha de um grande cirurgião amigo de seu pai. Mas, por acaso, ele conheceu Evelyne Goyens num hospital: ela estava internada para tratar uma tuberculose e passava os dias sozinha. Guardava um relógio de bolso sob o travesseiro que lhe fazia um pouco de companhia, como ela confessou a Michel. Essa grande miséria abalou o rapaz para quem até então a vida apenas sorrira:
Michel levava uma vida atribulada. Nada lhe faltava e vivia em meio à abundância; mas por fora conhecia a mais cruel das misérias; a que se concentra sobre um ser amado. Jamais se lhe havia revelado de uma maneira tão brutal essa injustiça que a uns permite esbanjar enquanto a outros faltava o mais necessário. Vivia ao mesmo tempo em dois mundos distintos: o da superabundância e o da mais espantosa indigência. Passava continuamente de um a outro, se exasperava e se rebelava contra o dinheiro, a sociedade e as desigualdades.
Logo voltava para o lado de Evelyne, naquele outro ambiente de humilde miséria, de injustiça e de resignação. E essa outra realidade se impunha, mais trágica e mais terrível. Realidade demasiado assustadora, lacerante como um remorso, da que se pode afastar a vista e fugir para poder ignorá-la, mas que ele havia visto cara a cara, que já não poderia esquecer e cuja venenosa recordação subsistiria enquanto vivesse se não obedecesse ao novo dever que se lhe impunha.

Precisei citar esses dois parágrafos para mostrar como a consciência de Michel entrou em conflito ao conhecer aquela moça absolutamente desamparada. Ele sabia que, se a abandonasse, ela iria morrer. Evelyne não tinha mais ninguém no mundo a não ser ele. A vida que levara até então começou a lhe remorder: como ele poderia seguir vivendo tranquilamente enquanto ela sofreria sozinha até a morte? Não pôde abandoná-la. Rompeu com seu pai e saiu da casa em que vivia com ele e as irmãs para procurá-la. Renunciou a tudo: sucesso profissional e fortuna, para cuidar daquela pobre e doente operária.
- Evelyne!
Michel correu até ela pronunciando seu nome com voz apagada. Uma diáfana clareza lhe iluminava os olhos da alma, e ao tornar a ver Evelyne teve a deslumbrante certeza de estar em posse da verdade. Aquele nome continha a confissão de todos os seus sofrimentos, de suas lutas, de seu amor mais forte que tudo, triunfante, mais poderoso que o mundo, que os homens, que suas próprias dúvidas e que ele mesmo. Não pôde dizer mais. Apenas aquele nome, como uma invocação que pronunciara, continha sua abnegação, ternura, piedade, toda a heróica loucura de seu sacrifício. E teve certeza de que também ela compreendia.
Meersch, do mesmo modo, brigou com seu pai para poder viver com Thérèze. Em Corpos e Almas, Jean Doutreval não entendia que "capricho" pudesse se passar na cabeça do filho para ter se apaixonado por uma moça completamente miserável e ainda por cima doente. Ele criara Michel completamente livre, sem amarras, para que pudesse fazer todas as suas vontades, para que pudesse vencer, para que pudesse sempre estar satisfeito consigo mesmo. Não conseguia compreender como o rapaz tinha vontade de atar-se a algo que, para ele, era uma terrível prisão, um sacrifício inútil, absurdo. O velho Doutreval só começou a entender Michel quando, depois de passar por cima de todos (inclusive dos próprios filhos) para realizar sua vontade, percebeu com horror que sua vida fora inteiramente dedicada a uma obra que era falsa. Soube que não contribuíra apenas para a sua própria destruição, mas também para a dos filhos. Ele -- e somente ele -- era o culpado. Chegou ao abismo do desespero. Felizmente sua alma era daquelas, como a do seu filho, que recebem "uma espécie de consciência" da dor. E assim, ao fim do romance, podemos ver a reconciliação de Jean e Michel Doutreval. Meersch dedicou esse livro ao seu pai.

Para sustentar a esposa, Meersch começou a ganhar a vida como escritor: chamava a si mesmo, jocosamente, de operário da pluma. Percebeu que a miséria de sua esposa, e também a dele, era como a de muitos outros trabalhadores pobres. A indignação expressada em livros como Quando Emudecem as Sereias, Pescadores de Homens, A Escravidão do Nosso Tempo e na trilogia A Menina Pobre (inspirada na vida de Thérèze) não é a de um ressentido que deseja verter o sangue alheio para se vingar, mas a do homem sensível que nota com tristeza que a vida de tantas pessoas era unicamente pautada por um trabalho paupérrimo e prazeres vulgares, cheios de perversidade. Ele viu que essa pobreza, de corpo e espírito, era um alimento para o ódio; aquelas pessoas tinham uma forma diminuída de vida, eram profundamente falhadas. Essa visão o espantou tanto, que mostrou-a com dureza em seus romances; por isso costumam dar-lhe a etiqueta de "naturalista" (e o apelido de "Zola Cristão"!).

Meersch sabia que o trabalho não é o fim da vida humana, mas apenas um meio. Graças ao amor de Thérèze pôde descobrir que o homem foi talhado para algo muito mais elevado, para um fim que o transcende, e que a vida só tem um sentido se for ela mesma um sacrifício. Ele assim nos mostra em Pescadores de Homens:
Recolhi-me e rezei como nunca até então tinha rezado, penso eu. Talvez porque nunca me tivesse encontrado tão só, tão abatido, tão impotente, sem uma assistência miraculosa. E ofereci-me inteiramente. Aceitava o sacrifício de mim próprio, implorava piedade para esta multidão com tanta exaltação que tive que esconder a cara nas mãos para que me não vissem chorar. Não sei se seria por causa das minhas angústias desse momento, das minhas tristezas, das minhas dúvidas e dos meus temores, mas foi nessa altura que a missa se me revelou com o seu significado simbólico. Sobre aquele altar, repetia-se o sacrifício de Cristo, exatamente como ele quisera que se repetisse todos os dias: a partilha do seu corpo e do seu sangue, para salvação dos homens. Para nos fazer compreender a todos que a nossa vida não devia ser outra coisa senão sacrifício. Compreendi então que, no fundo, a missa é a vida e que toda a nossa vida deve ser uma missa. Tudo isto que até então me parecia muito confuso, tornou-se em mim uma luz resplandecente. Assistia com fervor, com paixão, ao fim da cerimônia. Participara nela verdadeiramente pela primeira vez. E foi desde então que eu comecei a amar a missa, símbolo do nosso destino. Saí da igreja espantosamente reconfortado, retemperado para a luta.
Meersch escapou do desespero de sua juventude pelo sacrifício: abandonou o amor a si mesmo, aquele que traz consigo todo o egoísmo, para dedicar-se inteiramente a uma outra criatura, que tanto precisava dele. Essa foi a lição que ensinou a seu pai e continua a ensinar a nós, seus leitores. Depois de anos de luta (que ele também conta em Corpos e Almas), conseguiu que sua esposa se livrasse da tuberculose; mas infelizmente essa mesma doença o levou em 1951, deixando sozinhas Thérèze e a filha do casal, a quem chamaram Sarah.

Escolhi terminar este texto com as últimas palavras de Corpos e Almas:
Há somente dois amores. O amor a si mesmo, ou o amor às demais criaturas viventes. Por trás do amor a si mesmo não há nada além de sofrimento e maldade. Por trás do amor ao próximo, está o Bem, está Deus. Cada vez que o homem ama algo que não está sujeito a ele é, conscientemente ou não, um ato de fé em Deus. Só existem dois amores: o amor a si mesmo, ou o amor a Deus.
 ...

Em meu artigo sobre Juan Manuel de Prada, cometi uma injustiça que gostaria de reparar desta vez: não agradeci a meu amigo Alfonso Velasco Sendra. Graças a ele li El Septimo Velo e, desde então, tudo do autor espanhol. E também foi ele quem me indicou Corpos e Almas: foi ele quem me apresentou Maxence Van Der Meersch. Claro que lhe devo muito. E a ele dedico este texto.  

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Juan Manuel de Prada: buen vividor, católico y maldito


"Es verdad que yo sufro; pero oídme:
¿qué me importa sufrir si soy poeta?"
Armando Buscarini. Orgullo.

Juan Manuel de Prada disse em diversas oportunidades que o poeta boêmio Armando Buscarini é seu anjo da guarda literário. E assim podemos ver em seu livro Las Máscaras del Héroe, onde o pobre louco é retratado com seus tormentos causados pela sífilis. De Prada tem grande carinho pelos escritores malditos, com quem se identifica chamando a si mesmo um "apestado" dentro do mundo literário moderno. E ele é, sem dúvida, bem diferente dos outros escritores que fazem sucesso. Seus escritos são capazes de chocar progressistas e conservadores, ateus militantes e carolas sentimentalistas ("meapilas").  Ele também tomou para si o combate que foi de Léon Bloy e do Padre Castellani: o combate ao farisaísmo.

Penso que se pode aplicar a ele aquilo que disse Georges Bernanos: "minha obra sou eu mesmo". O mergulho na boemia madrilenha de princípios do século XX (Las Máscaras del Héroe); a visita aos escombros da consciência que queremos esquecer e a miséria de uma degradação viscosa que, apesar de tudo, ainda pode ser resgatada (La Vida Invisible); o horror ante o abismo que podemos alimentar em nossa alma que, como um buraco negro, é capaz de arrastar quem se aproxima (Me Hallará la Muerte); o drama daquele que perde a consciência dos próprios atos e, acreditando que errou em tudo, só pode carregar a culpa até tirar todos os véus que envolvem sua alma (El Séptimo Velo); o triste conflito entre a santidade quijotesca e o ressentimento de quem não consegue abandonar os próprios defeitos e não ama nem se deixa amar por Deus (Castillo de Diamante); a resistência heróica de homens miseráveis que, em meio à ruína, se esquecem de si mesmos e só podem pensar em servir a algo que os transcende (Morir Bajo tu Cielo); e o dilema da relação entre uma vocação afogada e outra ainda incipiente, cheia de esperanças e fantasias (Mirlo Blanco, Cisne Negro). Esta é uma pequena e deficiente síntese da obra de Juan Manuel de Prada, de sua vida mesmo. 

Me Hallará la Muerte, por exemplo, nasceu depois de um período de onze anos em que Juan Manuel de Prada, participando ativamente de tertúlias políticas no rádio e na TV, deixou de escrever. E, nesse romance, o personagem Antonio usurpa a identidade de Gabriel, oficial da División Azul que viveu e morreu como um herói; enquanto ele, covarde, caiu numa espiral de erros terríveis que destruíram as vidas de todas as pessoas que Gabriel amava e que por fim acabou destruindo-o também. Ele se afundou numa lama terrível - algo recorrente nos personagens do escritor - e constatou com asco todas as vidas quebradas por suas atitudes, especialmente a sua. Então se recordou de um amor de juventude, que talvez poderia salvá-lo:
A veces, en su relación superficial o crudamente física con Paloma, en su intercambio de palabras y excreciones indiferentes, encontraba inopinadamente un vestigio de ternura vergonzante, una traza apenas perceptible de humanidad, como si su alma apestada no estuviese corrompida del todo, como si aún guardara una reserva o un depósito último de vitalidad espiritual que aguardase otro milagro de la primavera. Paloma, por supuesto, no iba a avivar ese depósito, porque le faltaba curiosidad para indagarlo, pero tal vez otra mujer sí pudiera en el futuro. Tal vez Carmen, aunque se hubiese convertido en un trasto viejo; o precisamente por ello mismo.
Porque aquele traste velho, aquela mulher acabada e gastada pela vida, tão sofrida quanto Antonio, seria sua última esperança de deixar tudo para trás. Mas como deixar para trás a morte de uma jovem que acreditou ter-se deitado com seu próprio tio e engravidado? Como deixar para trás o leal e honesto amigo que, mesmo prestes a ser pai, foi chantageado a fazer um aborto que culminou em seu suicídio pela imensa culpa? Como deixar para trás todas as almas que se quebraram para que ele pudesse seguir adiante? E assim Juan Manuel de Prada nos ensina que de um mal nunca pode vir um bem. Sua linguagem é dura, direta e belíssima. Por estar embebido nos autores do Siglo de Oro é sempre necessário, mesmo para um espanhol (eles assim o dizem nas entrevistas), lê-lo com um bom dicionário à mão.

Os romances de Juan Manuel de Prada nos lembram de uma realidade que cada vez mais é posta de lado: a do pecado. O pecado está presente em todos os seus personagens porque também está presente no mundo; e a degradação, a tristeza e o desespero são suas consequências. O pecado se tornou a Vida Invisível que o autor nos narra nas excepcionais primeiras linhas de seu romance que tem esse mesmo nome:
Hay una vida invisible, subterránea como el veneno, por debajo de esta vida que creemos única e invulnerable, o quizá sobrevolándola, como una ráfaga que parecía inofensiva y que, sin embargo, se inmiscuye en los huesos, dejándonos su beso estremecido. Cuando esa vida invisible nos roza sentimos por un instante que la tierra nos falta debajo de los pies. Es una impresión fugaz, un sobresalto que apenas dura lo que dura una extrasístole, lo que dura la impresión de caída en las fases de duermevela que preceden al sueño, lo que dura el contacto furtivo de la culpa cuando mentimos atolondradamente, sin saber siquiera que estamos mintiendo y, desde luego, sin vislumbrar las consecuenciais de esa mentira.
Essa Vida Invisível que tentamos apagar junto com nossa consciência é o abismo que precisamos forçosamente olhar, o abismo que está em nós e que nos causa horror: o abismo que aqueles excessivamente brandos, que se creem sempre bons ou "não tão ruins assim", se recusam a admitir que exista. E o fazem porque a miséria e a degradação chocam, porque a certeza de que se está na lama é aterradora; então preferem negar essas coisas "obscurantistas" e exageradas. As palavras do Padre Castellani sobre Baudelaire também podem ser aplicadas a Juan Manuel de Prada:
(...) ciertamente no es una lectura para chicas que se alimentan de bocadillos y de novelas yanquis, ni para chicas en general, ni para beatos, ni para burgueses, ni para burros, ni para sacerdotes no advertidos, ni para hombres sin percepción artística, ni para la inmensa parroquia de la moralina y de la ortodoxia infantil. Asomarse al abismo no es para todos (...).
Não trago essa advertência do Padre Castellani para assustar a ninguém, mas para dizer que é preciso coragem para suportar o soco no estômago que costumam ser os romances de Juan Manuel de Prada. Suas obras e personagens nos assustam e apenam. Não simplesmente porque lhes acontecem coisas terríveis que nos entristecem, mas porque aquilo também é, de certo modo, parte de nossa vida. Seus sofrimentos e erros também são os nossos, assim como suas consolações:
Con la cabeza de Sor Lucía reclinada en su pecho, Novicio creyó estar viviendo uno de esos momentos privilegiados de la vida, cuando el alma se imbuye de una reconfortante sensación de gracia, sin patetismos rimbombantes ni sentimentalismos estridentes. Seguramente los ilongotes seguirían rondando por allí cerca, seguramente en los pantanos seguirían agazapados los caimanes, seguramente los hombres seguirían matándose en algún confín del planeta, pero en aquel paisaje que se extendía ante su mirada no se tenían noticias sobre la desgracia del género humano.
A serenidade da alma a que se chega pelo amor. Um amor que, em Morir Bajo tu Cielo, é impossível e precisamente por isso casto até o fim. Um amor capaz de mudar e fazer amadurecer dois personagens, dois inimigos, cujas vidas, completamente distintas e até então sem finalidade, mudam por completo e ganham um novo significado na presença de Sor Lucía, criatura encantadora com um sorriso capaz de desarmar a qualquer um. Autêntica consolação em meio à miséria, sem nenhum traço de sentimentalismo patético.  Porque o autor sabe que o sentimentalismo, terrível veneno para religião, também é um veneno fatal para o amor.

Outro veneno fatal para o amor é a melancolia exagerada, aquela que apodrece em nossa alma e pode tornar-se ressentimento. Eu disse no início que Juan Manuel de Prada se considerava também um maldito, por ser capaz de compreender e apiedar-se dos outros malditos. E isso aparece nas suas obras. Penso que a pobre Princesa de Éboli, antípoda de Santa Teresa, tenha sofrido um dos fins mais tristes de seus romances. Tanto que, quando ela por fim se entrega à ambição mundana sem esperanças de consolo para a alma, o autor abaixa a cabeça e não nos deixa ver o resto da história. Já não havia mais o que contar. Mas é notável a percepção que sua encantadora e quijotesca Santa Teresa tem de Ana de Mendoza:
Teresa había reconocido enseguida en Ana a una mujer - como ella misma - demasiado inquieta y original para un mundo que las prefería rutinarias y mansas; y en donde la que no se aviniese a aceptarlo no tenía otro destino sino llorar en secreto y resignarse a que sus cualidades y virtudes se malograran. A Teresa le había salvado de ese malogramiento Su Majestad, amándola al menos tanto como a María de Magdala o a la samaritana que le dio de beber; Ana, en cambio, no había encontrado esa ayuda, tal vez porque ella misma la había rechazado, tal vez porque no había sabido reconocerla. Sea como fuere, el caso es que a la postre el soplo divino no se había derramado sobre su alma, o al menos ella no lo había notado; y, por despecho o por tristeza, viendo que su alma no se llenaba de sol y de pájaros, Ana había permitido que la invadiesen las tinieblas y las sabandijas que nos llenan de bilis. Porque el alma, aunque no esté llena de humores como el cuerpo, no puede permanecer vacía; y cuando no la ocupa quien la creó, acaba tarde o temprano siendo pasto del que quiere destruirla.
É emocionante a cena de Ana, esfarrapada e enlouquecida pela dor da viuvez e do desespero, chorar como criança sobre as pernas de uma Santa Teresa já velha e cansada, cada vez mais próxima de Sua Majestade enquanto ela, Ana, se afogava em seu abismo de tristeza. O drama de Ana, a Princesa de Éboli, é o de não ter conseguido. E, por isso, Juan Manuel de Prada se apieda dela. E também nós, seus leitores. Ao fim de cada romance sobrevém uma melancolia; não aquela mortal, mas ainda outra: uma doce, tranquila, que talvez tenha algo que ver com o mistério da vida.